Não diga nada
- Mandy Schaufelberger
- 15 de set. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 20 de dez. de 2023

Contar histórias não é tão fácil quanto parece, e você só percebe isso de verdade quando se senta diante do computador para escrever alguma coisa. Sempre achei que a melhor maneira de contar uma história fosse dividi-la em fatos para expô-los em ordem cronológica, mas, depois de ler muitos livros, percebi que até mesmo um caso interessante pode ficar chato se contado dessa maneira, sem artifícios literários que despertem sentimentos no leitor. Por isso eu digo: ser escritor também é ser um artífice, porque, além de criar uma história, você também precisa organizar os fatos e apresentá-los de um jeito envolvente, com planejamento, técnica e arte.
Que o leitor é um bisbilhoteiro por excelência todo mundo já sabe. Sempre querendo se meter na vida dos personagens e descobrir tudo nos mínimos detalhes. Às vezes, chega a atribuir-lhes particularidades e características físicas que nem mesmo estão nos livros, mas somente em sua cabeça. Para o autor, na outra ponta, essa bisbilhotice acaba sendo vantajosa. Muitas vezes, ele instiga esse sentimento de propósito, com o objetivo de manter o leitor intrigado — e a gente sabe que um leitor intrigado não vai largar o livro, não é verdade?
Na minha experiência, nada prende tanto o leitor quanto um bom mistério. Pode parecer difícil inventá-lo do nada, e realmente não existe uma receita pronta para isso, mas é garantido que vai funcionar. Afinal, todo mundo tem segredos, e os personagens não são nenhuma exceção. Lembre-se disso quando estiver criando o passado deles.
O mistério pode tomar muitas formas narrativas. Pode ser um fato que não foi contado por completo e que só fará sentido quando a última peça do quebra-cabeças se encaixar; pode ser um segredo sombrio que elucida o comportamento extravagante de um personagem; ou mesmo uma cena insólita que precisa ser explicada. Vale tudo para cativar o leitor.
Existem muitas maneiras de fazer isso, e a mais comum é com o ponto de vista. É ele que direciona a atenção de quem está lendo. O ângulo narrativo, nesse sentido, funciona como uma espécie de foco de luz. Através dele, o autor pode escolher o que deixará visível e o que manterá na escuridão. É claro que, se tudo for revelado logo de início, não haverá mistério, e o leitor perderá o interesse. Por outro lado, se esse recurso for bem utilizado, levará a uma vontade irrefreável de descobrir a verdade. O leitor ficará orgulhoso de si mesmo à medida que for elucidando os fatos e nunca perceberá que foi o autor que escondeu a verdade dele e depois a revelou aos poucos, em migalhas, para que tudo fosse revelado no momento oportuno.
Tenho que confessar que não sou uma pessoa que consegue criar grandes mistérios com reviravoltas bombásticas nem consigo transformar a história num quebra-cabeças difícil de montar, como nos livros de suspense policial. Mas se você também é como eu, não se preocupe. A coisa não precisa ser um segredo mirabolante, algo inusitado ou super complicado. Se não, vejamos esse exemplo do livro “Depois”, de Stephen King:
No final do capítulo 50, o jovem Jamie volta ao prédio onde residia e faz uma pergunta ao seu antigo vizinho, o Prof. Buckett. Até aí, nada de mais. É uma cena até bem corriqueira. Se bem que toda pergunta carrega em si a espera por uma resposta, e isso, em certa medida, já tem potencial para gerar envolvimento. Acrescente a isso o fato de que, no universo do livro, alguns personagens são obrigados a responder o que lhes é indagado, “embora nem sempre a gente possa gostar do que vai ouvir” — provoca o autor. De repente, a pergunta é algo mais. Existe uma espera da parte do leitor, foi criada uma expectativa. Só que o autor não para por aí. Ele quebra essa expectativa, pois não revela o que foi perguntado e finaliza o capítulo com a seguinte afirmação, na voz de Jamie:
“Eu fiz a minha pergunta.”
Mas que pergunta?
A essa altura, o leitor está agoniado, querendo saber o que foi dito. Agora é que não vai abandonar a leitura. Mal sabe que não acabou. O autor ainda tem uma última provocação a fazer. Ele não revela prontamente o diálogo. Em vez disso, a história muda de cena, avança no tempo, e nos coloca na casa de Jamie, onde ele e a mãe estão preparando o jantar. Detalhes irrelevantes sobre como se lavar uma salada são colocados entre o leitor e a sua curiosidade.
“Quando cheguei em casa, minha mãe estava fazendo salmão do jeito que gostamos, enrolado em toalhas de papel molhadas, no microondas. Não parece que uma coisa tão simples seja tão gostosa, mas é.
— Bem na hora — disse ela. — Tem uma salada Caesar de saquinho na geladeira. Você pode servir para mim?
— Posso. — Peguei a embalagem na geladeira, no refrigerador, e abri.
— Não esquece de lavar. O saco diz que é pré-lavado, mas não confio nisso. Use o escorredor de macarrão.
Peguei o escorredor, joguei o alface dentro e usei o borrifador."
De maneira gradual, o autor vai direcionando a cena para a pergunta que Jamie fez ao Prof. Buckett.
"— Eu fui até o nosso antigo prédio — falei. Eu não estava olhando para ela, estava concentrado no trabalho.
— Achei mesmo que iria. Ele estava lá?"
Então, depois de muito suspense, o diálogo finalmente é narrado — porém de maneira indireta e pela boca de Jamie.
"— Eu perguntei por que a filha nunca veio visitá-lo nem veio ao enterro (...)”
Pronto! Ufa!
Stephen King poderia ter simplesmente continuado a partir da pergunta? Poderia. Mas isso não teria sido instigante, e haveria o risco de o leitor abandonar a leitura no intervalo entre os capítulos. Com esse artifício, ele continuou engajado. Agora terá que ler mais um capítulo — ou dois — antes de largar o livro.
Stephen King é o rei! Tá no nome. Li apenas "Revival" e já pude constatar isso. Quem sabe você segue os passos dele?
Muito legal o insight de escolher o que vai revelar pro leitor. E a análise do trecho do Stephen King também foi ótima. Amei suas dicas!