Um Estudo da Transparência
- Mandy Schaufelberger
- 7 de out. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 20 de dez. de 2023

Sentada na varanda, ela admirava o pôr do sol. Era sua parte favorita do dia, antes de as lamparinas se acenderem — quando as cores se espalhavam pelo céu, e as nuvens, tingidas de laranja e amarelo, dançavam como ondas num ritmo descompassado. Àquela hora, a última luz se despedia da fazenda e vinha tocar as flores e as plantinhas, criando sombras dignas de uma pintura de museu. Às vezes, ela desejava que seus olhos fossem capazes de guardar o que viam, para observar eternamente cada detalhe, cada cor, cada momento. Queria possuir um pouco daquela beleza que só parecia existir fora dela.
Uma brisa suave balançou seus cabelos, e eles perfumaram o ar. Ela respirou fundo. Recostou na cadeira. Fechou os olhos. Conhecia tão bem a paisagem que podia enxergá-la mesmo de olhos fechados. Assim julgava aproveitar um dos poucos momentos em que se sentia em paz com seu coração.
De repente, pensamentos ruins, de vergonha e de sofrimento, tentaram invadir sua tranquilidade. Pensamentos de quando ela engravidara — engravidara de um qualquer. De quando segurara a filha natimorta nos braços. De quando mudara completamente. Mas ela não permitiria que esses pensamentos a dominassem. Não naquele dia, não naquele momento, não com aquela paisagem pela frente.
Sentiu recair sobre si mesma o olhar do homem que estava ao seu lado. Reparou nele por um instante, não mais do que isso, e voltou-se novamente para a paisagem. Ela era sempre tão calada, mas estava sempre tão cheia de pensamentos gritando em sua mente.
Quando pensava nele, pensava em gentileza. Quando os outros pensavam nela, pensavam em desonra, em grosseria, em orgulho. Assim, era compreensível que não entendessem o fato de o homem gostar tanto dela. Oras, se nem ela entendia!
Quando seu pai adoeceu, o homem passou a cuidar dele. Quão inteligente e estudado, quão conhecedor do mundo ele lhe parecera! E era tão gentil, tão doce, tão respeitoso — e, por algum motivo que ela não sabia definir, passara a gostar dela, a realmente gostar dela. Todos percebiam. Ela percebia. O homem não tinha vergonha de dizer nem fazia questão de esconder. E, por mais que secretamente ela também tivesse sentimentos, não estava pronta para assumir, para amar. E não sabia se algum dia estaria.
É claro que ela já tivera pretendentes, vários deles, como os outros insistiam em lembrar, mas nunca ninguém a tratara como ele, com tanta gentileza, tanto carinho, tanto respeito. E isso a assustava. A possibilidade de ser amada genuinamente assustava mais do que qualquer outra coisa. Porque amar e ser amada exigia coragem.
E quando o homem olhava para ela daquela maneira, com olhos cheios de ternura, com tanto cuidado, todos os sentidos se esvaíam, e ela se via perdida nos próprios passos, nas próprias palavras e nos compromissos.
E agora, mesmo diante de uma vista linda como aquela, o homem continuava olhando para ela, contemplando-a. Preferia olhar para ela, tão cinza de alma, a ver os últimos raios do sol, com suas belas cores. Ela simplesmente não compreendia o que possuía de tão especial. O que poderia merecer tamanha admiração? Como estavam sozinhos, e o cenário amolecia seu coração, resolveu perguntar.
— Por que me olha desse jeito? — A voz dela soou um pouco ríspida.
Ela era sempre tão rude, tão estúpida sem motivo, e, mesmo assim, o homem nunca se abalava, sempre lhe devolvia delicadeza. Em sua defesa, fazia isso unicamente como uma tentativa de afastá-lo, para se proteger, para proteger seus sentimentos. Não se permitia amá-lo, não se achava digna. Mas ele insistia em permanecer do seu lado, cheio de amor, respeito e admiração.
— De que maneira? — ele quis saber.
— Como se pudesse ver através de mim.
— É porque eu posso — respondeu ele, como se isso fosse comum.
Ela sempre soube que o homem não era considerado normal. Não que fosse um desmiolado como o pai dela, mas suas ideias certamente eram muito inovadoras e revolucionárias. Isso era algo que a encantava — ela que sempre ficara presa na fazenda —, mas também lhe causava estranheza.
Como era possível enxergar através de outra pessoa? questionou-se. Ela jamais cogitara essa possibilidade, nunca vira através de ninguém. Pelo contrário, sempre esperava encontrar o pior nas pessoas, achava que o ser humano tinha uma tendência à maldade. Mas precisava saber o que é que aquele homem via nela. Seria ela uma desconhecida de si mesma? Seria ela incapaz de enxergar dentro de si, para além da tristeza e da mágoa?
— E o que é que você vê? — perguntou sem hesitar.
— Oras, vejo a mulher forte que você é — respondeu ele, com um sorriso generoso. — Vejo que, apesar de a vida ter sido injusta, você continuou lutando com coragem e bravura. Mas também vejo doçura e amor. Vejo elegância na maneira como se porta e vejo inteligência, muita inteligência, nas suas decisões, ainda que você tente ser discreta para passar despercebida. Quando sorri, vejo um brilho; quando argumenta, vejo determinação. Quando costura, vejo habilidade e, quando lê, vejo imaginação. E apesar de você não se ver, eu a vejo. Então, não, eu não consigo deixar de olhar para você desse jeito.
Isso foi dito com tanta ternura que atingiu em cheio o coração dela. Não estava preparada para que vissem tantas coisas boas nela, para que realmente a enxergassem, apesar de todos os defeitos, e do orgulho — e principalmente da vergonha.
Por fora, não pôde evitar senão abrir um sorriso enviesado, mas, por dentro, estava demasiado feliz. Seu coração saltava de alegria e de esperança, tomado de uma irresistível afeição. Mas não permitiria que esses sentimentos aflorassem, não podia — ela não merecia! Então escondeu dele. Talvez nunca o deixasse perceber o efeito que tinha sobre ela.
— Você é… diferente — disse, ajeitando os cabelos, e olhou novamente para a paisagem. Agora começava a anoitecer.
— E isso é bom ou é ruim?
— Ainda não decidi.
Levantou-se da cadeira, alisou o vestido e saiu da varanda, deixando-o sozinho com o sorriso na boca e a esperança no coração. Não, não seria daquela vez que revelaria seus sentimentos, mas quem sabe um dia?
A narrativa apresentada é uma rica tapeçaria de emoções humanas, que nos leva por uma viagem pelos recônditos da alma feminina. Cada palavra, meticulosamente escolhida, destila a mestria da autora em transmitir com clareza e profundidade os sentimentos mais íntimos e complexos. A protagonista, com suas imperfeições e sua relutância em reconhecer o amor genuíno, é um retrato fiel da condição humana, da luta interna entre vulnerabilidade e autossuficiência. O ambiente, da varanda à luz do crepúsculo, serve como um cenário quase que impressionista, onde a natureza e os sentimentos humanos se entrelaçam de forma harmônica. É inegável o poder que a autora tem de nos transportar para esse mundo introspectivo, fazendo-nos refletir sobre a natureza do amor, do autoconhecimento…
Parabéns pela sua coragem, Amanda. Esse texto é lindo, prende nossa atenção e nos faz sentir parte da história, como se estivéssemos lá observando tudo de pertinho. Você é uma excelente escritora! Te admiro!
Adorei esse jeito de entrar de repente numa história já começada. Não é necessário saber o que aconteceu antes nem o que vai acontecer depois. É um mergulho violento no sentimento da personagem. Muito autêntico e muito real. Parabéns! Excelente!